É Melhor Estar Só do Que Mal Acompanhada? Como o Medo da Solidão Leva Mulheres a Relacionamentos Doentios

Entenda como o medo de ficar sozinha tem colocado as mulheres em casamentos doentios.

Por um lado, existe uma ânsia extrema de se casar, casar a todo custo, como se o casamento fosse a solução para todos os vazios, inseguranças, traumas e frustrações acumuladas ao longo da vida, como se um homem fosse capaz de curar feridas que nunca foram enfrentadas, como se a aliança tivesse poder terapêutico automático.

Por outro lado, surge um novo movimento na internet de mulheres amarguradas que transformaram a solidão em ideologia, que passaram a romantizar o isolamento como forma de defesa, como se fechar o coração fosse sinônimo de maturidade emocional, como se desistir fosse prova de lucidez.

Afinal, quem está com a razão? Nenhuma das mulheres desses dois lados. Existe um caminho mais coerente que é a capacidade de se curar para conseguir amar sem se perder e para escolher sem se desesperar.

O medo de ficar sozinha é um dos motores mais silenciosos dos relacionamentos doentios, porque ele empurra a mulher para vínculos que ela jamais aceitaria se estivesse emocionalmente inteira.

Esse medo não nasce do desejo legítimo de amar, ele nasce da incapacidade de suportar a própria companhia, do pavor do silêncio, da necessidade constante de validação externa para sentir que a própria vida tem valor.

Quando a mulher entra em um relacionamento para fugir da solidão, ela não está escolhendo, ela está se escondendo, e tudo aquilo que começa como fuga termina como prisão.

Antropologicamente, a mulher sempre foi orientada para o vínculo, para a construção de laços, para a vida compartilhada, isso faz parte da sua natureza relacional.

O problema surge quando essa inclinação natural é distorcida pela carência emocional não resolvida. Em vez de vínculo, surge dependência. Em vez de comunhão, surge apego ansioso. Em vez de parceria, surge submissão silenciosa. A mulher passa a tolerar desrespeito, ausência, infantilidade e até violência emocional porque a alternativa, estar sozinha, lhe parece insuportável. Não porque o relacionamento seja bom, mas porque o vazio interno é maior que a dor externa.

Do outro lado, o movimento de mulheres que escolhem permanecer sozinhas como postura definitiva também não representa maturidade, mas reação. Muitas dessas mulheres não escolheram a solitude por plenitude, mas por esgotamento. Elas foram feridas, frustradas, enganadas ou abandonadas, e em vez de curar, endureceram. Transformaram a dor em identidade, a decepção em discurso, o fechamento emocional em bandeira. A solidão, nesse caso, não é paz, é anestesia. Não é liberdade, é autoproteção extrema. Não é maturidade, é medo travestido de independência.

A filosofia clássica nos ajuda a compreender que a virtude está sempre no meio, nunca nos extremos. Nem o desespero por casar, nem a rejeição total do amor conduzem à vida boa. A vida boa exige ordem interior, domínio das paixões, clareza de propósito e capacidade de suportar tanto a ausência quanto a presença sem se desintegrar. 

A mulher virtuosa não corre atrás de um casamento como quem corre atrás de salvação, mas também não despreza o vínculo como quem despreza algo menor. Ela entende que o amor é consequência de uma alma organizada, não solução para uma alma ferida.

O feminismo contribuiu para esse cenário ao vender duas mentiras opostas ao mesmo tempo. Para algumas mulheres, vendeu a ideia de que o casamento é opressão e que a solidão é libertação. Para outras, reforçou a ideia de que o valor feminino está no status relacional, no anel no dedo, na validação pública do vínculo. Em ambos os casos, a mulher foi afastada do essencial, que é o trabalho interior, a cura emocional, a responsabilidade pela própria vida psíquica. Sem isso, qualquer escolha será desequilibrada, seja para casar, seja para permanecer sozinha.

Existe um caminho mais coerente que passa pela capacidade de se curar para conseguir se relacionar sem desespero e sem cinismo, para desejar o casamento sem idolatrá-lo e para aceitar a solidão sem transformá-la em identidade. 

Curar-se significa olhar para os próprios padrões, reconhecer feridas, assumir responsabilidades, aprender a ficar só sem se sentir abandonada e aprender a estar com alguém sem se anular. Significa desenvolver critérios, paciência, discernimento e coragem para dizer não quando for necessário, mesmo que isso implique esperar mais tempo.

A mulher curada não entra em casamentos doentios por medo de ficar sozinha, nem se fecha para o amor por medo de se machucar. 

Ela escolhe com calma, observa com atenção, espera com dignidade e se entrega com consciência. 

Ela sabe que estar só pode ser um tempo fértil de crescimento, e que estar acompanhada só faz sentido quando o vínculo amplia a vida, não quando a diminui. 

No fim, a pergunta não é se é melhor estar só ou mal acompanhada, a verdadeira questão é se a mulher está inteira o suficiente para não precisar aceitar nem uma coisa nem outra.Quer aprender mais sobre os dilemas femininos através de aulas baseadas em filosofia clássica e psicanálise? conheça meu clube

Fran Pecóis

Fran Pecóis é mentora de mulheres, psicanalista e estudiosa da filosofia clássica. Fundadora do Clube Bela&Feminina, com mais de 20 mil alunas em diversos países. Cristã, casada com Raul há 15 anos e mãe da pequena Helena.

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