Hoje, os casais namoram por 10 anos e se divorciam em 1. O que era para ser frágil, como o namoro, se tornou difícil de romper e o que era para ser rígido, como o casamento, se tornou fácil de se quebrar. Isso acontece porque a ordem natural dos vínculos foi invertida, não apenas no comportamento individual, mas na estrutura simbólica que sustenta as relações humanas, e quando a hierarquia dos compromissos se desorganiza, o afeto perde chão, o vínculo perde peso e a promessa perde sentido.
Do ponto de vista antropológico, o namoro sempre existiu como uma fase de observação, teste de caráter, discernimento e preparo, nunca como um espaço de conforto absoluto, estabilidade emocional total ou vida compartilhada sem compromisso formal.
Nas sociedades tradicionais, o namoro era curto, delimitado, supervisionado e orientado para uma finalidade clara, o casamento. Ele era leve justamente porque tinha direção, e era rompível porque não havia ainda a fusão total de vidas, corpos, recursos e destinos.
Quando o namoro se estende indefinidamente, ele deixa de ser um período de discernimento e passa a ser uma simulação de casamento sem voto, sem pacto e sem responsabilidade pública.
Ao mesmo tempo, o casamento, que sempre foi entendido como um contrato sagrado, social e moral, algo que envolvia não apenas sentimentos, mas deveres, honra, permanência e sacrifício, foi esvaziado de seu peso simbólico.
Ele deixou de ser visto como um compromisso de vida para se tornar um acordo emocional condicional, válido enquanto satisfaz desejos individuais imediatos. Quando o casamento perde seu caráter de aliança e se transforma em um contrato de conveniência emocional, ele se torna tão descartável quanto qualquer outro arranjo afetivo.
A filosofia clássica ajuda a entender esse fenômeno com clareza. Para os antigos, especialmente na tradição aristotélica, o amor verdadeiro não era primariamente emoção, mas escolha orientada à virtude e ao bem comum.
O casamento era visto como uma comunidade de vida ordenada, onde duas pessoas se comprometiam a crescer em caráter, a educar filhos e a sustentar uma ordem doméstica estável. Isso exigia constância, domínio das paixões, paciência e responsabilidade.
Quando a modernidade passou a tratar o sentimento como soberano absoluto, acima da razão, da virtude e do dever, os vínculos passaram a oscilar conforme o humor, o desejo ou a frustração do momento.
Nesse cenário, o namoro longo se torna um espaço emocionalmente pesado porque carrega expectativas que não lhe pertencem. As pessoas exigem do namoro a segurança do casamento, a exclusividade absoluta, a estabilidade emocional total e a resolução de conflitos profundos, mas sem oferecer o pacto que sustenta essas exigências.
Isso gera desgaste, ressentimento e medo de avançar. Já o casamento, esvaziado de sua seriedade, passa a ser rompido ao primeiro sinal de desconforto, porque foi construído sobre a ideia equivocada de que ele existe para servir à felicidade individual e não para formar caráter, família e continuidade.
Os princípios difundidos pelo feminismo agravaram esse desequilíbrio ao redefinir liberdade como ausência de vínculo, autonomia como não depender de ninguém e realização pessoal como prioridade absoluta sobre qualquer compromisso duradouro.
Ao ensinar que toda exigência é opressão, que toda renúncia é perda de identidade e que todo limite é violência simbólica, esse pensamento corroeu silenciosamente a disposição feminina para a permanência e a construção paciente, ao mesmo tempo em que desresponsabilizou o homem, que já vinha fragilizado em sua identidade adulta.
O resultado é um relacionamento onde ninguém quer dever nada, ninguém quer suportar o peso do outro, ninguém quer atravessar fases difíceis, mas todos querem colher os benefícios emocionais do vínculo.
O namoro vira um casamento informal sem garantias, e o casamento vira um namoro caro, com burocracia e pouca disposição para perseverar.
A lógica do consumo e do utilitarismo entra no afeto, se não satisfaz, troca, se frustra, descarta, se cansa, encerra.
Antropologicamente, quando os ritos de passagem desaparecem, as transições se confundem. As pessoas não sabem mais quando estão prontas, não sabem quando devem avançar, não sabem quando devem sustentar. Tudo fica líquido, indefinido, subjetivo. A ausência de rituais claros para o casamento, de valores compartilhados e de pressão social positiva pela permanência faz com que o vínculo dependa exclusivamente da força emocional do casal, algo que nenhum relacionamento humano consegue sustentar por muito tempo.
O casamento não foi feito para ser fácil, foi feito para ser forte e duradouro. O namoro não foi feito para ser pesado, foi feito para ser leve e fácil de romper.
Quando essas funções se invertem, a estrutura inteira desmorona. Casais se arrastam por anos em relações que não avançam por medo, comodismo ou confusão, e depois se separam rapidamente quando finalmente oficializam algo que nunca foi compreendido como aliança, mas apenas como extensão de um sentimento instável.
Restaurar a ordem não é voltar ao passado de forma ingênua, mas recuperar o sentido das coisas. Namorar com propósito, casar com consciência, entender que o amor maduro exige virtude, renúncia e permanência, e que a verdadeira liberdade não está em poder ir embora a qualquer momento, mas em escolher ficar mesmo quando ficar custa.
Sem isso, continuaremos vivendo relações longas e frágeis ao mesmo tempo, extensas no tempo, mas rasas no compromisso, intensas na emoção, mas pobres em sustentação real.Quer aprender como agir com o seu namorado ou marido? Tenho aulas profundas sobre esses temas no meu Clube de Feminilidade e amadurecimento feminino: conheça aqui